Publicado
17 horas agoem
Por
Rafael Kanô
Depois de um ano de edições no exterior, o festival confirma um evento especial na fortaleza em julho de 2027 e o retorno completo para 2028
“EXIT IS COMING HOME!”. Foi com essa frase, em caixa alta, que o EXIT Festival anunciou em 29 de outubro, no Instagram, que volta à Sérvia, segundo a Mixmag. O festival que nasceu em 2000 como parte de um movimento de protesto estudantil, e que saiu do país depois de apontar “pressão governamental sem precedentes”, marca o retorno com um evento especial em julho de 2027, na Fortaleza de Petrovaradin, e deixa o retorno em grande escala para 2028.
No texto do anúncio, reproduzido no site do próprio festival, o EXIT diz que, embora o grande retorno estivesse previsto para 2028, “no próximo julho vamos nos reunir mais uma vez na Fortaleza para celebrar LIBERDADE, UNIÃO E AMOR juntos, com uma experiência EXIT especial que vamos revelar em breve”. A tradução é nossa, a partir do original em inglês. A Pollstar identifica a fortaleza como Petrovaradin, em Novi Sad, cidade onde o festival aconteceu por 25 edições consecutivas, segundo a INSITE.
Nenhum dia específico foi divulgado, e a Pollstar diz que datas, conceito, line-up e ingressos virão depois. O festival também não chama o evento de “menor”: a palavra oficial é “experiência especial”. A edição completa, na escala de sempre, segundo o EXIT, exige pelo menos 18 meses de preparação, e por isso fica para 2028.
O diretor Dušan Kovačević foi cauteloso sobre o calendário. “Só posso dizer, neste momento, que dissemos que o EXIT voltaria quando a liberdade voltasse”, afirmou à Mixmag, completando que é cedo para dizer quando isso será possível e que os próximos passos serão conhecidos nas próximas semanas. Na publicação, o festival disse que o plano original era 2028, “mas vocês nos arrebataram com tanto amor”.
A saída é a parte mais pesada da história, e vale contá-la com a atribuição certa. Segundo a Mixmag, depois da edição de 2025, que reuniu 70 mil pessoas, o festival deixou o país alegando “pressão governamental sem precedentes”, ligada ao apoio público que deu aos protestos de estudantes. O EXIT afirma ter perdido mais de 1,5 milhão de euros em cofinanciamento público e patrocínios controlados pelo governo, número que o próprio festival divulgou e que veículos como a Music Ally e a IQ reproduziram. É a conta do EXIT, não uma auditoria independente. A INSITE reproduz que o festival foi “praticamente banido” do país por causa do apoio aos estudantes, e que por isso a edição de 2026 não aconteceu em Novi Sad.
Em 2026, o festival foi realizado fora de Novi Sad. A página oficial da turnê global lista o Starlight Festival, no Egito, o EXIT2Montenegro, em Ulcinj e Budva, o Spiral Festival, em Malta, e o Sea Star, em Umag, na Croácia, além de um evento em Belgrado. A Mixmag cita também a Macedônia.
O anúncio vem quatro dias depois das eleições parlamentares de 25 de outubro de 2026. Segundo a publicação do governo sérvio com os dados da Comissão Eleitoral da República, os resultados preliminares, com 8.187 locais de votação apurados, davam à Lista dos Estudantes 52,71% dos votos e 140 das 250 cadeiras, uma maioria absoluta, contra 39,17% e 104 cadeiras da lista de Aleksandar Vučić. Os números são preliminares, e não a certificação final. O festival chamou o resultado de “vitória histórica” dos estudantes, e a leitura política é dele e dos veículos que o citam, não nossa.
O Rockography lembra um detalhe simbólico. Em julho do ano passado, o EXIT e os estudantes exibiram na fortaleza faixas com os dizeres “Studenti pobeđuju”, os estudantes vencem, e “Dogodine na tvrđavi”, no próximo ano na fortaleza. O anúncio de agora é, de certa forma, a resposta a essa faixa
A pergunta de fundo é se um festival pode ser, ao mesmo tempo, um negócio e um ator político, e quanto isso custa. O EXIT é um caso raro em que a conta foi feita em público, com um número, mais de 1,5 milhão de euros segundo o próprio festival, e com uma decisão de sair do país em vez de recuar. Já argumentamos que a pista deixou de ser politicamente neutra na cobertura do ADE, que completou 30 anos com duas saídas que mudaram o clima da edição, quando a escalação virou posição pública. O caso do EXIT empurra o argumento para a fronteira seguinte, a de que não é só a escalação, é o lugar onde o festival escolhe existir.
Outro ponto é o papel de quem fica. Em O pulso da autenticidade, o Breakpoint trata de como clubes e selos independentes sustentam a cena underground quando a estrutura grande falha.
O que vem a seguir ainda é incerto. A data exata do evento de julho, a programação e a venda de ingressos não foram divulgadas, e Kovačević disse que os próximos passos aparecem nas próximas semanas. A edição completa de 2028 depende de um planejamento de pelo menos 18 meses, o que faz de 2027 menos um ensaio do que um teste de confiança entre o festival, o público e o país.
Eu não escrevo sobre o que toca na pista, escrevo sobre o motivo de você estar lá às quatro da manhã ouvindo aquilo. Formado pra questionar e mal educado o suficiente pra não pedir desculpa depois. Se minha opinião te incomoda, provavelmente é porque ela é boa.
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