Publicado
19 horas agoem
Por
Marcos Villa
O episódio 01 reúne uma hora de melodic house, organic house e melodic techno, que sobe de 120 a 127 BPM
O DJ e produtor ARTOIS, de Campinas, apresenta Pista Vazia, série de sets de áudio dedicada ao horário que quase nunca aparece nos cartazes, o da abertura. O episódio 01 já está no SoundCloud, com uma hora que começa em 120 BPM e sobe de forma gradual até 127.
A pista ainda vazia, o bar arrumando o gelo e o segurança como único ouvinte. A série pega esse horário e dá a ele linguagem própria. O set começa baixo, usa a harmonia entre as faixas como roteiro e cresce sem atropelar quem vem depois.
A série vem da experiência de quem já passou por isso. ARTOIS lembra dos domingos de um projeto antigo na Sala 575. “Eu brincava que estava tocando para mim, para os garçons e para as cadeiras. Mas desde aquela época eu já sabia da importância disso”, conta. Na época de residência na DHaus, o cenário se repetia com outro sentido. “Era muito legal pegar a pista completamente vazia e ir criando todo o cenário para entregar para os próximos DJs, que iam continuar tornando a noite fantástica.” – conta Artois.
O método do episódio 01 é a parte mais técnica da proposta. Segundo ARTOIS, toda música tem uma nota em que se sente em casa, a tonalidade. “Quando duas faixas tocam juntas e as notas de casa delas são parentes, o resultado soa como uma música só. Quando são distantes, soa como dois cantores, cada um num tom, aquele desconforto que o ouvido percebe mesmo sem saber explicar.”
Ele usa como mapa o círculo de doze posições em que as vizinhas são parentes. Na maior parte do set, o caminho vai de vizinha em vizinha, em passos curtos, e os saltos maiores aparecem de propósito, como efeito. Subir uma posição costuma dar um pouco mais de energia, e descer relaxa. “Assim dá para contar uma história de uma hora sem que ninguém perceba por que tudo parece fazer sentido.”
O episódio 01 abre em dó maior, a 120 BPM, a tonalidade mais simples do piano, que usa só as teclas brancas e tem um clima aberto e claro. A escolha tem uma razão prática. “Para a primeira hora, eu queria um ponto de partida que não pesasse e que deixasse bastante caminho para subir. Boa parte do meu repertório está em tons menores, mais escuros, então começar claro faz a virada para o escuro, mais adiante, ter mais efeito.” O andamento acompanha a lógica, de 120 para 127 BPM, “como uma caminhada que vira trote”. Em um dos momentos do set, a harmonia vai de sol maior para dó maior, e o efeito é o de chegar em casa. “É o mesmo efeito do último acorde de uma música, que fecha a frase. Esse tipo de pouso só existe porque o roteiro foi pensado.”
Para quem toca, o recado é sobre ritmo. “Não é necessário ter pressa. É o momento de relaxar, de deixar o BPM subir aos poucos e sentir o momento.” ARTOIS conhece o erro mais comum do horário, que é a ansiedade. “Muitas vezes bate a ansiedade, ou até a frustração, de abrir uma pista com poucas pessoas. Se soubessem o quão importante é o warm up e como é legal construir e pegar essa responsa, muitos talvez quisessem fazer um. A dica de ouro é não ter pressa, curtir muito aquele momento e buscar o arrepio pessoal.”
Ele também conhece o outro lado da moeda, quando o DJ que toca antes pesa a mão. “Já houve situações em que eu estava no slot entre o warm up e o headline e o DJ anterior assustou a pista, e eu tive que esfriar tudo e começar o trabalho do zero.”
Sobre a ideia de que abrir a noite seja ingrato, ele discorda de saída. “Ingrato para quem? Não acho que seja ingrato, pelo contrário. Muitos acham que vão começar sendo headliner de qualquer evento, e as coisas não são assim. A responsabilidade de pegar o warm up é tão grande quanto a de quem vai fechar a noite.”
Para o público que não é DJ, a mensagem é a mesma. “A ideia é abrir a mente de DJs e produtores para ouvir um som que, além de dançante, pode ser de warm up. E que quem não é DJ e vai ouvir entenda que o início da noite é tão importante quanto o headline, e isso faz parte de toda a narrativa da noite.”
O set combina três vertentes, e a ordem importa. “Você inicia com organic e um pouco de melodic house, que vai puxar a pista para o momento dançante do melodic techno. As vertentes conversam entre si, basta saber reuni-las e trazer para a pista.”
ARTOIS mantém também no YouTube a série Dórico, de sets em vídeo. O nome vem do modo dórico, que ele descreve como a base harmônica da sua música. Os dois formatos têm funções diferentes. “O Dórico é o ARTOIS em vídeo, sets gravados com o meu som completo, melodic techno e house. O Pista Vazia é outra coisa, é o set de quem abre a noite. Só áudio, no SoundCloud, pensado para a primeira hora, quando o trabalho do DJ é construir o clima sem atropelar a atração seguinte. Um mostra o que eu toco, o outro mostra para que horário eu sirvo.”
A previsão é de que o Pista Vazia tenha episódios quinzenais, enquanto o Dórico segue com periodicidade mensal, pelo menos nesta fase inicial.
DJ e produtor de Campinas, com lançamentos pelos selos Rabbit Records, do Reino Unido, Mercurial Tones, da Suécia, e Cactunes, do Brasil, além de faixas em coletâneas da Bonzai. Seu som atravessa o espectro da música eletrônica, do trance hipnótico europeu ao anthem de festival, e hoje se concentra no cruzamento entre melodic house e melodic techno.
ARTOIS é o projeto artístico de Bruno, fundador e editor-chefe do DropDaily. Sobre o lugar de onde fala, ele resume: “O DropDaily é uma ponte fundamental neste momento, porque eu vejo a cena de uma maneira macro e entendo como posso atuar como DJ e fazer algo diferente ou relevante para a cena no ambiente em que estou.”
O Pista Vazia, episódio 01, está disponível no SoundCloud de ARTOIS. Para contratações, o contato é artois.bookings@gmail.com.
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