Connect with us

Cena & Comportamento

O ADE completa 30 anos com duas saídas que mudaram o clima da edição.

Publicado

em

O Amsterdam Dance Event celebra três décadas de história de 21 a 25 de outubro, e a semana de aniversário ficou marcada por duas polêmicas do ADE sem ligação direta entre si, mas que dizem muito sobre o peso político que a pista carrega. De um lado, a DJ palestina Samaʼ Abdulhadi retirou o nome da programação. Do outro, o DJ russo Alexander Komarov foi removido de uma festa depois de enviar uma mensagem ameaçadora a um artista ucraniano. A Mixmag publicou os dois casos em 21 de outubro.

A saída de Samaʼ Abdulhadi

Samaʼ Abdulhadi estava convidada para um painel sobre música e resistência. Em um comunicado no Instagram, em 20 de outubro, ela disse que decidiu não participar. O motivo, segundo a própria DJ, é a presença no festival de artistas israelenses que serviram nas Forças de Defesa de Israel, as IDF. Ela escreveu que vários nomes da programação já serviram no exército israelense, que alguns deles declararam apoio público a Israel e às suas forças militares e que outros ficaram em silêncio.

Abdulhadi afirma que não defende a exclusão de artistas simplesmente por serem israelenses. Para ela, dar palco a esses nomes é normalizar o Estado israelense e seus crimes, e o silêncio, nas palavras dela, não é prova de concordância, mas cumplicidade. Ela também pede que festivais façam escolhas conscientes sobre quem recebe palco e sobre quais vozes amplificam. A Mixmag acrescenta, como contexto, que em Israel cidadãos judeus, drusos e homens de origem circassiana são convocados ao serviço militar aos 18 anos. A publicação não identifica os artistas a que ela se refere, e o ADE ainda não havia respondido às alegações até a publicação da matéria.

O DJ russo removido do line up

O outro caso envolve Alexander Komarov. Segundo a Mixmag, ele enviou ao artista ucraniano Bonkrashkov uma mensagem em que desejava a morte dele e a de seu país. O texto foi compartilhado no Reddit, e Komarov confirmou ao jornal holandês Algemeen Dagblad que o escreveu.

Komarov estava escalado para uma festa da gravadora Interplay Records, marcada para 23 de outubro no Bacan. Foi retirado da programação, e o nome dele também deixou de aparecer no site oficial do festival. Um porta-voz do ADE disse que line ups podem mudar até o último momento e que Komarov definitivamente não está mais nele. O próprio DJ afirmou que planejava ir ao evento e que não vai mais se apresentar no ADE neste fim de semana. O cônsul honorário da Ucrânia, Karel Burger Dirven, escreveu no LinkedIn ao diretor-gerente do ADE, Jan-Willem van de Ven, que o caso era absolutamente inaceitável e pediu que o DJ fosse banido.

O que as duas saídas mostram sobre o ADE

O ADE de 2025 reuniu cerca de 600 mil visitantes, quase 3.500 artistas e mais de 1.200 eventos, segundo o Festival Insights. Um festival desse tamanho funciona como um mosaico de festas, painéis e selos, e quase nada ali é decidido por uma única mão. É por isso que as polêmicas chegam pela porta lateral, pelo convidado de um painel ou pela escalação de uma festa específica, e não pela direção do evento.

Os dois casos também mostram que a pista deixou de ser território neutro. Uma DJ sai porque discorda de quem divide a programação com ela, e um DJ perde a vaga por causa do que escreveu em uma mensagem privada que se tornou pública. Para quem acompanha o ADE do Brasil, o recado é direto. Em 2026, cada decisão de line up passa a ser lida como posição, e é nessa chave que público, artistas e selos vão avaliar o ADE dos 30 anos.

Eu não escrevo sobre o que toca na pista, escrevo sobre o motivo de você estar lá às quatro da manhã ouvindo aquilo. Formado pra questionar e mal educado o suficiente pra não pedir desculpa depois. Se minha opinião te incomoda, provavelmente é porque ela é boa.