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Cultura

Por que os nomes do EDM comercial estão voltando para o house cru

David Guetta, Marten Hørger e o movimento dos gigantes do EDM de volta ao house funcional. O que isso diz sobre a pista brasileira.

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Quando um produtor de bass house entrega o hino oficial de um dos maiores festivais da Alemanha, a notícia parece um detalhe de calendário. Mas o nome ao lado dele em outro projeto conta uma história bem maior, sobre o caminho de volta que o pop eletrônico de estádio vem fazendo em direção ao som de porão que um dia ele deixou para trás.

Há um movimento acontecendo no topo da música eletrônica comercial, e ele contraria tudo o que se esperava da última década. Os artistas que construíram carreiras bilionárias no EDM de mainstage, aquele som grandioso, melódico e feito para explodir diante de dezenas de milhares de pessoas, estão discretamente refazendo o caminho na direção oposta. Estão voltando para o house mais cru, mais funcional, mais próximo da pista pequena do que do palco gigante. E entender por que isso está acontecendo diz mais sobre o futuro da cena do que qualquer lançamento isolado.

O muro que separava dois mundos

Por muitos anos, existiu uma fronteira clara na música eletrônica, e quase ninguém a atravessava sem pagar um preço reputacional. De um lado estava o EDM, sigla que passou a designar o som que dominou os festivais americanos e europeus a partir do começo dos anos 2010, com drops enormes, melodias hímnicas e uma lógica de produção voltada para o impacto máximo. Do outro estava o house underground, com sua tradição de groove repetitivo, funcionalidade de pista e uma estética que valorizava a sutileza sobre o espetáculo.

Esses dois mundos se olhavam com desconfiança. O underground via o EDM como uma versão vulgarizada e comercial de uma cultura que tinha raiz na black music de Chicago e Detroit. O EDM via o underground como elitista e pequeno, incapaz de encher os estádios que a nova economia dos festivais exigia. David Guetta, mais do que qualquer outro, virou o símbolo dessa divisão. O produtor francês foi um dos arquitetos da explosão comercial da música eletrônica, e por isso mesmo virou alvo preferencial de quem defendia a pureza da cena.

O que quase ninguém previu é que a própria fronteira ia se dissolver, e que a dissolução viria de cima para baixo. Não foram os artistas underground que subiram ao mainstage. Foram os nomes do mainstage que desceram de volta para o porão.

Quando os gigantes começaram a atravessar

O caso mais documentado e revelador é o do próprio Guetta. Ao longo dos últimos anos, o produtor passou a operar sob um alias, o Jack Back, dedicado exclusivamente ao house mais direto e funcional, lançando faixas que soavam deliberadamente distantes do épico melódico que o consagrou. Em entrevistas, ele foi explícito sobre a motivação, queria reconectar com a house music que o formou antes da fama, com aquele som de clube que não depende de um refrão gigante para funcionar. O gesto era simbólico, o homem mais associado ao EDM comercial dizendo, na prática, que sentia falta da pista de verdade.

Guetta não estava sozinho nesse movimento, e nem foi o primeiro sintoma. A ascensão do tech house ao mainstream ao longo dos últimos anos redesenhou o mapa. Nomes que construíram audiências enormes com um som antes considerado de nicho passaram a lotar os mesmos festivais que antes eram território exclusivo do EDM melódico. O groove seco e rolante do tech house, que privilegia a repetição hipnótica sobre a catarse do drop, virou a nova linguagem franca das grandes pistas. Um som que dez anos antes seria considerado underground demais para o mainstage agora é o próprio mainstage.

É nesse contexto que a movimentação recente de Marten Hørger ganha significado além do release. O produtor alemão, que a DJ Mag já descreveu como representante de um som próprio construído a partir de house, techno e bass music, entregou o hino oficial do Parookaville deste ano, uma faixa de tech house pensada para o momento de pico de mainstage. Isso, por si só, é rotina. O que interessa é outra coisa mencionada no anúncio do lançamento, um projeto conjunto entre Hørger e David Guetta chamado Men Machine.

De acordo com o comunicado, esse projeto colaborativo aproxima um dos maiores nomes do pop eletrônico global de um produtor enraizado no bass house e no som de clube. Se a parceria for o que o anúncio sugere, ela é mais um capítulo do mesmo enredo, o gigante comercial buscando deliberadamente a companhia de quem nunca saiu do território mais cru. Não é o underground legitimando o EDM. É o EDM buscando a legitimidade e a energia que só o house funcional oferece.

O que esse movimento diz para a pista brasileira

Aqui está a parte que interessa diretamente a quem acompanha a cena daqui. O Brasil viveu esse mesmo ciclo, e talvez de forma ainda mais intensa que a Europa. A pista brasileira sofisticada, especialmente no eixo de São Paulo, passou anos consolidando um gosto por house e techno mais introspectivos e funcionais, longe do EDM de festival de massa. O que está acontecendo lá fora, com os nomes comerciais migrando para o som cru, valida um caminho que a curadoria brasileira mais atenta já vinha trilhando.

Quando um clube de São Paulo constrói uma noite sobre tech house e house funcional em vez de apostar no melódico grandioso, está operando na mesma lógica que agora seduz até o David Guetta. A diferença é de timing. A cena de clube brasileira chegou nesse território antes, por convicção, enquanto o mainstream global está chegando agora, por necessidade de renovação. Isso deveria ser motivo de orgulho para quem defende a curadoria daqui, porque significa que o gosto da pista brasileira sofisticada estava adiantado, não atrasado.

Existe também uma lição estratégica para artistas e produtores brasileiros nesse movimento. A fronteira entre comercial e underground, que por tanto tempo pareceu intransponível, está mais porosa do que nunca. O som que funciona na pista pequena está reconquistando a pista grande. Para quem produz aqui, isso abre uma janela, o groove funcional e bem construído tem hoje mais chance de escalar do que em qualquer momento da última década, justamente porque o topo da cadeia está com fome desse tipo de som.

Para onde isso caminha

O ponto que fica é que a música eletrônica comercial está num momento de correção de rota. Depois de anos empurrando o EDM melódico até o limite da saturação, os grandes nomes perceberam que o público cansou da fórmula do drop gigante e buscou algo mais próximo da função original da música de pista, fazer as pessoas dançarem sem precisar de um clímax constante. O house cru, o tech house rolante, o groove funcional, tudo isso oferece uma alternativa que soa fresca justamente por ser antiga.

Se o projeto Men Machine confirmar o que o anúncio promete, ele será mais uma evidência de que essa correção não é passageira. Não se trata de um artista isolado experimentando, e sim de um padrão que atravessa os maiores nomes da indústria. O anthem do Parookaville, nesse quadro, é quase uma nota de rodapé. O que importa é o que ele revela sobre o momento, o EDM comercial não está morrendo, está se reencontrando com a raiz que um dia negou.

Para a cena brasileira, o recado é claro e favorável. A pista daqui, que apostou no som funcional antes de virar tendência global, não estava fora do jogo. Estava na frente dele. E enquanto o mainstream internacional corre para alcançar o território que o house cru sempre ocupou, quem já vivia nesse território tem uma vantagem que raramente aparece na música de pista, a de ter chegado primeiro.

Encontrei minha paixão pela música eletrônica na infância e sonho em viajar pelo mundo fazendo o que amo e conhecendo novas culturas.