Publicado
4 horas agoem
Por
Duda Ferraz
Uma festa de música eletrônica não precisa necessariamente escolher uma única tribo para construir sua identidade. Em Belo Horizonte, onde diferentes cenas convivem e se cruzam há décadas, o público parece cada vez mais disposto a fazer esse percurso dentro da mesma noite. A próxima edição da Never Ends é um exemplo particularmente claro dessa lógica: no dia 11 de outubro, próximo domingo, véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, a festa reúne John Newman, Blazy, Mila Journée e Acid Asian no Shopping do Avião, em Contagem.
A escalação chama atenção menos pela quantidade de nomes do que pela distância entre os universos que eles representam. John Newman chega com uma trajetória construída entre o pop, a música eletrônica e a soul music. Blazy representa o psytrance. Mila Journée transita pelo melodic techno e por uma eletrônica de perfil mais experimental. E Acid Asian leva à pista a intensidade do hard techno. São públicos que poderiam perfeitamente frequentar festas diferentes, mas que, no dia 11, estarão diante do mesmo palco.
A proposta não surgiu por acaso. Para a VSLT Produções, responsável pela Never Ends, a experiência acumulada em diferentes projetos ao longo dos últimos anos mostrou que existe espaço em Minas Gerais para eventos capazes de aproximar cenas que, durante muito tempo, foram tratadas como universos separados.
O nome mais imediatamente reconhecível do line-up é John Newman, e sua presença ajuda justamente a ampliar a ideia do que pode ser uma atração de uma festa de música eletrônica. O britânico começou a ganhar projeção internacional em 2012, quando emprestou os vocais para “Feel the Love”, hit do Rudimental que chegou ao primeiro lugar no Reino Unido. No ano seguinte, consolidou sua própria carreira com “Love Me Again”, single que também alcançou o topo da parada britânica e entrou no Top 10 de mais de 30 países, se tornando referência da relação entre vocal soul e produção dançante, hoje somando mais de 1,6 bilhão de streams.
Em 2014, Newman ampliou ainda mais essa conexão com a pista ao participar de “Blame”, colaboração com Calvin Harris que se tornou um dos grandes sucessos do período. Ao longo da carreira, o artista também trabalhou ou se aproximou de nomes como Kygo, David Guetta e Galantis, acumulando nove músicas que chegaram ao primeiro lugar como artista ou compositor e mais de 2,5 bilhões de streams. Mas, para além dos hits, Newman chega a Belo Horizonte numa nova fase na qual sua relação com a música eletrônica voltou a ocupar posição central, com um show que combina a performance vocal que o tornou conhecido com sua atuação como DJ e produtor.
Blazy é hoje um dos nomes brasileiros de maior projeção internacional no psytrance, e chega à Never Ends com uma trajetória que inclui apresentações em Tomorrowland, Rock in Rio, Ultra, Dreamstate e Universo Paralello. Desde que surgiu profissionalmente, em 2017, o produtor construiu uma carreira baseada em lançamentos de grande alcance dentro do gênero, somando 12 faixas que chegaram ao primeiro lugar do Beatport e mais de 300 milhões de streams acumulados. Seu álbum de estreia, “The Chase”, reforçou esse impacto: todas as faixas alcançaram o Top 10, enquanto a música-título chegou ao primeiro lugar global.
A presença de Blazy é particularmente significativa porque o psytrance historicamente desenvolveu no Brasil uma comunidade própria, com festivais, pistas e circuitos bastante particulares. Colocá-lo ao lado de John Newman significa aproximar duas experiências de pista que, à primeira vista, poderiam parecer distantes, e é justamente aí que a escalação da Never Ends encontra sua lógica.
Mila Journée acrescenta outra camada à noite. A DJ e produtora brasileira construiu sua assinatura a partir de melodias, atmosferas e momentos de tensão e surpresa, desenvolvendo uma sonoridade que transita pelo techno melódico sem se limitar a uma fórmula específica. Sua relação com a Diynamic foi especialmente importante para a projeção internacional: em 2022, o lançamento do EP “Serendipity” pelo selo de Solomun colocou sua música diante de uma audiência global, em 2023 “No Es No” se tornou outro marco de sua trajetória, e em 2025 Solomun voltou a lançar um trabalho seu pela gravadora.
A lista de artistas que já deram suporte às suas produções ajuda a dimensionar o território em que Mila circula, incluindo, além de Solomun, nomes como Anyma, Adriatique, Tale Of Us, Maceo Plex, Honey Dijon, Pete Tong, Vintage Culture, Tiësto, CamelPhat, Mind Against e WhoMadeWho. Em 2026, ela abriu ainda uma nova frente de atuação com a Journeey Records, sua própria gravadora, inaugurada com “Malabaris”, colaboração com Vintage Culture. No contexto da Never Ends, Mila funciona como uma espécie de ponte, já que sua música pode conversar tanto com quem procura a dimensão melódica e emocional da eletrônica quanto com uma pista interessada em sonoridades mais sofisticadas e experimentais.
Se Blazy representa uma vertente de alta intensidade e Mila trabalha com tensão e atmosfera, Acid Asian leva a noite para uma outra frequência. Fábio Seiki foi o primeiro artista brasileiro a lançar um EP pela KNTXT, selo de Charlotte de Witte, e se tornou um dos nomes brasileiros associados à atual expansão do hard techno. A relação com a gravadora começou ainda antes de seu lançamento, já que Charlotte o apadrinhou em 2021, e desde então o artista passou a fazer parte recorrente do ecossistema do selo. Em 2022, ele assinou “Break Into Acid”, primeiro lançamento da sub-label RPMX, e participou de todas as edições brasileiras da KNTXT, além de apresentações durante o ADE, em Amsterdã, e um showcase em Manchester.
Seu currículo também passa por Tomorrowland, tanto na Bélgica quanto no Brasil, DGTL, Verknipt, Ame Laroc Festival e Mottus, onde abriu a pista para Amelie Lens. No exterior, já tocou em espaços como The Warehouse Project e T7 Paris, além de ter passado por Japão, Índia, Chile, Romênia e Alemanha. Musicalmente, Acid Asian combina acid lines, kicks marcados e percussões inspiradas no taiko, instrumento tradicional japonês, com referências que atravessam techno, psytrance e rap, uma assinatura que ajuda a explicar por que seu nome cabe numa noite que não pretende ficar restrita a uma única escola de música eletrônica.
John Newman, Blazy, Mila Journée e Acid Asian não representam apenas quatro atrações de estilos diferentes. Eles ajudam a desenhar uma noite em que o público pode transitar entre referências que normalmente aparecem separadas. Há quem vá pela memória afetiva de “Love Me Again”. Há quem acompanhe a trajetória de Blazy desde o psytrance. Há quem tenha chegado à música eletrônica pela cena melodic e pelos lançamentos de Mila. E há quem encontre em Acid Asian a velocidade e a agressividade do hard techno.
Essa disposição dialoga com um momento em que o público mineiro vem demonstrando interesse por experiências menos compartimentadas. A programação recente da VSLT é um dos recortes possíveis dessa transformação, já que em vez de construir festas necessariamente em torno de um único gênero, a produtora vem apostando em projetos nos quais diferentes comunidades conseguem encontrar pontos de contato. Isso não significa que as diferenças entre os estilos desapareceram, pelo contrário: a graça está justamente em colocá-las lado a lado e deixar que cada artista apresente seu próprio universo. No aniversário de cinco anos da Never Ends, a proposta é transformar essas diferenças em um ponto de encontro.
A Never Ends 5 Anos acontece no domingo, 11 de outubro, véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, no Shopping do Avião, na Avenida Babita Camargos, 1295, Cidade Industrial, em Contagem, Minas Gerais. O line-up da noite reúne John Newman, Blazy, Mila Journée e Acid Asian. Os ingressos estão no terceiro lote, a partir de R$ 170,00 mais taxas, disponíveis pela plataforma Sympla.
Já perdi a conta de quantos lineups eu decorei e quantos vôos eu perdi tentando cobrir dois festivais no mesmo fim de semana. Sei a diferença entre um palco que promete e um palco que só tem luz bonita, e prometo nunca confundir os dois na sua frente. Se o ingresso vale a pena, eu falo, se não vale, também.
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