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Passado e futuro da house brasileira dividem a mesma cabine

Ratier e Brisotti dividem a cabine do D-EDGE Rio na Ratier & Friends. O que o encontro de gerações revela sobre a house nacional.

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Quando um artista que celebra 30 anos de carreira sobe na cabine ao lado de um nome que está exportando a house brasileira agora, o que acontece não é só uma festa. É a cena inteira se olhando no espelho, o que ela foi e o que ela está virando, no mesmo metro quadrado de pista.

Existe uma pergunta que quase nunca se faz sobre a música eletrônica brasileira, e ela é incômoda justamente por ser simples. Como uma cena passa o bastão de uma geração para a outra sem se perder no caminho. A house nacional já tem idade suficiente para ter camadas, gente que estava lá quando o gênero engatinhava no país e gente que nasceu para o mundo já com o gênero consolidado. E quando esses dois tempos se encontram numa cabine só, em formato de diálogo e não de revezamento, dá para ver de perto como essa transmissão realmente funciona.

Uma cena que já tem história para contar

A house music brasileira parou de ser importação faz tempo. O que começou como eco das pistas de Chicago, Nova Iorque e da Europa foi, ao longo de décadas, ganhando sotaque próprio, produtores próprios, selos próprios e um público que aprendeu a distinguir o que é feito aqui do que vem de fora. Esse amadurecimento criou algo que cenas jovens não têm, uma linha do tempo. Passou a existir um antes e um depois, veteranos e novatos, gente que construiu a fundação e gente que está erguendo os andares de cima.

Essa profundidade histórica é um ativo que a cena brasileira raramente celebra como deveria. Enquanto o discurso público sobre música eletrônica no país costuma girar em torno do último lançamento ou do festival da vez, o que sustenta tudo isso é uma continuidade silenciosa, artistas que atravessaram diferentes eras do gênero, adaptaram seu som sem abandonar a identidade, e seguiram relevantes enquanto o mundo ao redor mudava de tendência a cada temporada. Manter uma carreira longa na música de pista, um território que devora novidades e descarta nomes com velocidade brutal, é uma façanha que merece mais atenção do que recebe.

Do outro lado dessa linha do tempo está a geração que chegou para internacionalizar. São artistas que não precisaram sair do Brasil para sonhar com o mundo, porque já cresceram vendo a house nacional ocupar palcos globais. Para eles, tocar em Ibiza ou lançar por selos internacionais não é um teto distante, é uma etapa esperada da carreira. Essa mudança de mentalidade, do sonho tímido para a ambição natural, é uma das transformações mais importantes da cena brasileira nos últimos anos, e ela só foi possível porque alguém, antes, abriu a porta.

O encontro que resume a transição

É nesse contexto que a noite de sexta no D-EDGE Rio ganha significado além da agenda. O projeto Ratier & Friends, criado justamente para promover encontros musicais entre artistas de trajetórias distintas em formato B2B, coloca na mesma cabine nomes que representam momentos diferentes da house nacional. E o formato importa tanto quanto os nomes. B2B não é revezamento, é conversa. Dois ou mais artistas construindo uma narrativa musical juntos, ao vivo, negociando referências e influências em tempo real. É a metáfora perfeita para o que a própria cena faz ao longo dos anos, passar adiante sem simplesmente entregar o posto.

De um lado dessa conversa está Ratier, que segundo o anúncio do evento celebra três décadas de carreira em 2026, com três álbuns de estúdio e um trabalho recente lançado por um selo de Berlim, transitando entre house, techno, deep house e sonoridades orgânicas. É o tipo de trajetória que só existe quando alguém atravessou várias fases do gênero e sobreviveu a todas elas mantendo uma linguagem reconhecível. Do outro lado está Brisotti, apontado como um dos principais nomes da nova geração, que de acordo com o material do evento vive uma ascensão internacional acelerada, com lançamentos por selos estrangeiros e uma parceria que ultrapassou milhões de reproduções nas plataformas. Em 2025, deu um passo que resume o espírito da sua geração, fundou uma gravadora dedicada a projetar a música eletrônica brasileira para fora.

A diferença entre os dois não é de qualidade, é de posição na linha do tempo. Um ajudou a construir o terreno onde o outro agora corre. E quando os dois dividem a cabine, o que o público testemunha não é uma disputa de gerações, é uma transmissão. O veterano não está lá para provar que ainda tem fôlego, e o novato não está lá para destronar ninguém. Eles estão construindo algo juntos, que é exatamente como uma cena saudável se perpetua.

Por que o formato e o lugar dizem tanto

Completam a noite dois nomes que reforçam a ideia de continuidade. Paula Miranda carrega duas décadas de atuação dentro e fora das pistas, unindo a experiência de quem tocou à de quem também construiu eventos por dentro da indústria. Marcio Careca, segundo o material do evento, acompanha a evolução da música eletrônica brasileira desde os anos 1980, o que faz dele uma espécie de memória viva da cena, alguém que viu o gênero nascer no país. Juntar quatro trajetórias tão distintas numa cabine só não é acaso de line-up, é uma declaração sobre o que a house nacional se tornou, um organismo com várias idades convivendo ao mesmo tempo.

O lugar também não é detalhe. O D-EDGE é um dos endereços mais simbólicos da música eletrônica brasileira, uma casa que virou referência de curadoria e que carrega peso histórico dentro da cena. Realizar esse encontro de gerações ali adiciona uma camada, o espaço físico que também atravessou o tempo recebendo o encontro de quem atravessou o tempo fazendo música. Há uma coerência entre o continente e o conteúdo que não passa despercebida para quem conhece a trajetória da casa.

Para o público que frequenta as melhores pistas do país, entender esse tipo de encontro é entender a própria cena. Não se trata de escolher entre o respeito ao veterano e o entusiasmo pelo novo. Trata-se de perceber que os dois são partes do mesmo movimento, e que a saúde de uma cena se mede justamente pela capacidade de fazer essas pontas se tocarem sem atrito.

O que isso revela sobre para onde a cena vai

O encontro de sexta é um retrato de um momento maior. A house brasileira está numa fase em que a transição entre gerações deixou de ser conflito e virou colaboração. Os veteranos não estão sendo empurrados para fora, estão dividindo a cabine com quem chegou depois. Os novatos não estão negando o que veio antes, estão fundando selos e exportando um som que só existe porque alguém plantou a semente há décadas. Essa convivência é rara na música de pista, um território que costuma valorizar o novo às custas do que veio antes, e vê-la acontecer de forma tão explícita diz algo otimista sobre o futuro da cena nacional.

O recado que fica, para quem produz e para quem consome música eletrônica no Brasil, é que a cena atingiu uma maturidade que permite olhar para trás sem nostalgia paralisante e para frente sem apagar a origem. Quando Ratier e Brisotti dividirem a cabine, não estarão apenas tocando. Estarão mostrando, na prática, como uma cena se mantém viva, passando adiante o que recebeu, sem soltar a mão de quem construiu o caminho. E talvez seja isso o que separa uma cena que apenas existe de uma cena que dura.

Serviço

D-EDGE RIO apresenta RATIER & FRIENDS

Local: Centro Cultural D-EDGE Rio – Av. Rodrigues Alves, 293 – Saúde, Rio de Janeiro – RJ
Data: 10/07 (sexta-feira)
Horário: A partir das 23h
Atrações: Ratier, Brisotti, Marcio Careca e Paula Miranda
Ingressos: A partir de R$ 70,00 (+ taxas) via Ingresse

Encontrei minha paixão pela música eletrônica na infância e sonho em viajar pelo mundo fazendo o que amo e conhecendo novas culturas.