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Entrevista

Illusionize e o álbum “11”: quando a liberdade criativa encontra a maturidade artística

Em conversa exclusiva com a DropDaily, Pedro Mendes revela como espiritualidade, independência e autenticidade moldaram seu projeto mais pessoal

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Créditos: Divulgação

Existe um momento na carreira de todo artista em que as máscaras caem e a essência emerge. Para Pedro Mendes, conhecido como Illusionize, esse momento chegou em forma de álbum. “11”, lançado em 11 de julho via sua própria gravadora This Is Not A Label, não é apenas uma nova obra sonora – é uma declaração de independência criativa e um mergulho profundo na identidade que sempre existiu, mas que nunca havia encontrado espaço para respirar.

Onze faixas. Onze anos de carreira solo. E um número que, segundo Pedro, “aparece o tempo todo” em sua vida. Não é coincidência. É sincronicidade. É a materialização de um processo que combina maturidade artística, liberdade criativa e uma coragem rara no cenário atual da música eletrônica: a de ser completamente autêntico.

Créditos: Divulgação

A coragem de ser diferente

“Pra mim foi algo muito especial, pois sempre quis fazer esse tipo de música. Não conseguia antes por limitações, mas como tudo nessa vida nos ensina algo, aprendi e desapeguei de muita coisa para concretizar este álbum”, conta Pedro quando questionado sobre a produção de uma obra com identidade sonora tão distinta do que tocou durante a maior parte da carreira.

Esse desapego que Pedro menciona não é apenas musical. É existencial. É sobre entender que evolução artística exige coragem para deixar para trás fórmulas que funcionam em busca de algo mais verdadeiro. Em um cenário onde muitos artistas permanecem presos a estilos que os consagraram, Illusionize escolheu o caminho mais difícil: a autenticidade.

O álbum navega pelos territórios do Organic House, Deep House e Afro House, gêneros que sempre estiveram presentes em seus sets mais longos, mas que nunca haviam sido explorados em produções próprias. “Eu podia não estar produzindo diretamente mas tocava em meus long sets… Pois pra mim era um dos momentos mais marcantes dos meus sets”, revela.

Espiritualidade como força criativa

Quando se fala em espiritualidade na música eletrônica, é comum encontrar discursos vazios ou estratégias de marketing disfarçadas. Com Pedro, a abordagem é diferente. Há uma honestidade crua em suas palavras que revela um processo genuíno de transformação pessoal.

“Este álbum veio em meio a um amontoado de coisas que estavam acontecendo em minha vida, mundo pós pandemia, família, filho e um apego muito grande em ‘PRECISO FAZER TUDO SOZINHO, PRECISO PROVAR ALGO’ (em relação à música). Em meio a tudo isso me veio uma luz e com isso dei início a construção deste álbum que temos pronto agora.”

Essa “luz” que Pedro menciona não é metáfora. É o resultado de um processo profundo de autoconhecimento que se reflete diretamente na música. O número 11, considerado um número mestre na numerologia e associado à intuição, iluminação e transformação, se tornou o fio condutor não apenas do álbum, mas de uma nova fase da vida do artista.

É interessante observar como artistas verdadeiramente evoluídos conseguem transformar crises pessoais em combustível criativo. Pedro não apenas sobreviveu às turbulências dos últimos anos – ele as transformou em arte.

A revolução silenciosa da independência

Em um momento em que artistas celebram contratos com grandes gravadoras como vitórias supremas, Pedro escolheu o caminho oposto. A decisão de lançar “11” de forma completamente independente através da This Is Not A Label não foi estratégica – foi necessária.

“Das gravadoras sempre querendo algo que já existia, um (Bootleg) um som que fosse viral e coisas do tipo. Eles só pensam em números, eu penso em uma base sólida que deve ser construída com carinho, paciência e tempo”, explica.

A crítica de Pedro ao sistema não é ressentimento. É lucidez. É a compreensão de que a indústria musical, em sua busca obsessiva por fórmulas virais, muitas vezes mata a alma da música. Sua abordagem é diferente: construir uma base sólida de fãs genuínos que acompanham sua evolução há mais de uma década.

“Eu tenho uma fanbase que me dá muito orgulho, muitos me acompanham há mais de 10 anos e isso me alegra e me faz ter um senso de responsabilidade muito grande”, revela. Essa responsabilidade é evidente em cada escolha do álbum, desde as colaborações cuidadosamente selecionadas até a decisão de testar as faixas ao vivo nos eventos GoodTimes antes do lançamento oficial.

Conselhos para uma nova geração

Pedro não romantiza sua jornada. Quando questionado sobre conselhos para artistas iniciantes, sua resposta é direta e crua: “Tenham um bom advogado ou encontrem um, leia tudo antes de assinar. Entenda que neste mundo, a grande maioria dos engravatados só querem dinheiro e sugar tudo que dá. Tenham cuidado, até mesmo com aqueles que se dizem ser alguém que não são.”

A honestidade brutal dessa resposta revela alguém que aprendeu na prática os perigos de um mercado que muitas vezes prioriza lucro sobre arte. “Eu já me dei muito mal com essa galera e espero ajudar vocês a não se darem mal também”, completa.

É essa transparência que torna Illusionize um artista importante não apenas musicalmente, mas como figura de referência para uma nova geração que precisa navegar um mercado cada vez mais complexo e predatório.

O GoodTimes como laboratório criativo

O GoodTimes, que começou como um set especial no SoundCloud em 2015, evoluiu para muito mais que uma festa. Tornou-se um laboratório criativo onde Illusionize pode explorar sua musicalidade mais orgânica e introspectiva sem as pressões comerciais tradicionais.

“O GoodTimes é onde posso me expressar de forma genuína, leve e autêntica, com alma e sem amarras, apegos ou coisas do tipo. É um convite a viver a musica de um jeito único e especial.”, define. Os eventos auxiliaram diretamente na construção do álbum: “Testei muita coisa ao vivo, fui moldando as faixas a partir dessas conexões. O público me inspirou.”

Essa abordagem orgânica de testar música ao vivo antes do lançamento em estúdio é rara no cenário atual, onde muitas vezes o produto final é decidido por algoritmos e estatísticas de streaming. Pedro escolheu o caminho mais humano: deixar que a energia real da pista moldasse sua arte.

Futuro construído sobre bases sólidas

Quando questionado sobre os próximos passos, Illusionize demonstra a maturidade de quem entende que crescimento sustentável não acontece da noite para o dia. “Pretendo continuar o trabalho que tenho feito nestes últimos meses. Com a gravadora eu tenho planos de fazer eventos mais pra frente, uma forma de trazer lines legais com musicalidade e peso ao mesmo tempo.”

A estratégia é clara: construir um ecossistema próprio que combine música, eventos e experiências. Continuar os eventos GoodTimes, expandir as edições Saturn pelo Brasil e desenvolver a This Is Not A Label como plataforma para artistas que compartilham da mesma filosofia de qualidade sobre quantidade.

A essência permanece

“11” não é uma ruptura na carreira de Illusionize. É uma expansão. É o momento em que o artista que sempre existiu encontra finalmente espaço para respirar. É a prova de que autenticidade e sucesso não são conceitos opostos – apenas requerem coragem e paciência para serem conciliados.

“Música pra mim é evolução, é aprendizado”, sintetiza Pedro. E é exatamente essa abordagem que torna “11” um álbum importante não apenas na discografia do artista, mas no cenário da música eletrônica brasileira. É a demonstração de que é possível crescer mantendo a integridade, evoluir sem perder a essência, e construir uma carreira sólida baseada em valores genuínos.

Em um mundo onde tudo parece descartável e imediato, Pedro Mendes nos lembra que algumas coisas – as mais importantes – ainda precisam ser construídas com carinho, paciência e tempo. “11” é a materialização dessa filosofia. E talvez seja exatamente isso que nossa cena precisa: mais artistas dispostos a escolher o difícil caminho da autenticidade.

Encontrei minha paixão pela música eletrônica na infância e sonho em viajar pelo mundo fazendo o que amo e conhecendo novas culturas.