Em 2021, 300 pessoas se reuniram em Valencia para discutir o futuro da indústria de nightlife. Em 2026, esse número chegou a 3.000. Esse crescimento de dez vezes em cinco anos não é coincidência. É sintoma de uma transformação estrutural que a cena eletrônica vinha adiando há décadas.
O nightlife sempre foi indústria. Só que por muito tempo preferiu não se enxergar assim.
De evento para instituição: o que o FBD revela sobre a maturidade da cena
A quinta edição do Fun Business Days (FBD) aconteceu em abril, na Ciudad de las Artes y las Ciencias, em Valencia, e reuniu mais de 3.000 profissionais de clubes, festivais, gestão de artistas e operações de eventos de toda a Europa e dos Estados Unidos.
O dado mais revelador não é o número de participantes. É a velocidade com que esse número cresceu.
Eventos de networking existem em todos os setores. O que diferencia o FBD é que ele surgiu no momento exato em que a indústria de nightlife parou de tratar gestão estratégica como assunto secundário e começou a reconhecer que talento criativo sem estrutura de negócio não escala.
Awakenings, Sziget e Parookaville no mesmo palco: o que isso significa
Parte do programa desta edição reuniu nomes como Rocco Veenboer e Tim Middelesch, da Awakenings, Tamás Kádár, do Sziget Festival, e Bernd Dicks, do Parookaville, discutindo operações, regulamentação e consistência de marca em múltiplos mercados.
Colocar esses três no mesmo contexto de discussão estratégica seria impensável há dez anos.
A Awakenings construiu três décadas de identidade techno sem abrir mão de curadoria. O Sziget navegou regulações húngaras, pressão comercial e expansão europeia. O Parookaville criou um universo de marca próprio dentro do mercado de festivais alemão. O que eles têm em comum é que todos sobreviveram ao caos operacional do setor porque desenvolveram visão de longo prazo antes de precisar dela.
Gestão de artista virou empresa: e a cena brasileira ainda não acordou para isso
A discussão sobre gestão de artistas no FBD foi além do óbvio. Rachel Strassberger, Chris Braun (Artbat) e Cristiana Votta (Black Coffee) falaram sobre como carreiras artísticas se tornaram ecossistemas de negócio com branding, comunidade e receita diversificada.
Indira Paganotto e seu manager Alex Avanzato foram além: apresentaram um modelo que inclui residências internacionais, moda e direção criativa como pilares do projeto.
Isso não é exceção. É o padrão que está se consolidando no topo da indústria global. No Brasil, a maioria dos artistas ainda opera com gestão informal, sem contrato estruturado, sem separação entre pessoa física e projeto artístico, e sem estratégia de receita além do cachê por apresentação. O gap é real e está crescendo.
O networking como produto, não como benefício secundário
Alberto, CEO da Fourvenues e cofundador do FBD, resumiu bem o que o evento representa: um espaço onde profissionais compartilham abertamente como administram seus negócios.
Isso é raro porque a indústria de nightlife historicamente operou no sigilo. Cachês não se discutem. Margens não se revelam. Contratos ficam na gaveta.
O FBD quebra essa lógica ao criar um ambiente onde transparência estratégica é o produto. E o crescimento de participação ao longo de cinco edições sugere que o setor estava faminto por isso.
O que esse movimento significa para quem está na cena brasileira agora
O Brasil tem Tomorrowland, tem Green Valley, tem Warung, tem uma cena de clubes que rivaliza com qualquer mercado europeu em termos de público e cultura. O que ainda falta é infraestrutura de conhecimento de gestão circulando entre quem opera esses espaços.
Eventos como o FBD mostram que a profissionalização do nightlife não é tendência, é condição de sobrevivência. Festivais que não desenvolvem capacidade de gestão estratégica estão cada vez mais vulneráveis a crises operacionais, mudanças regulatórias e pressão de mercado.
A pergunta que fica para a cena brasileira é direta: quando teremos nosso próprio espaço para essa conversa?