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The Man Will Burn: o que significa o Burning Man na HBO

O Burning Man tem um princípio contra a comercialização. Agora tem uma série na HBO. O que isso revela sobre o festival e sobre a cena.

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Desde 1986, o Burning Man cresceu de suas raízes contraculturais e anárquicas em San Francisco até se tornar um espetáculo reconhecido globalmente. A cada ano, 80 mil “Burners” se reúnem no deserto de Nevada para criar música, arte e conexão. E agora, pela primeira vez em quatro décadas, essa história vai ser contada numa série de quatro episódios na HBO.

The Man Will Burn estreia em 9 de julho de 2026, dirigida por Jehane Noujaim e Vikram Gandhi, com acesso exclusivo à liderança do Burning Man Project e aos arquivos históricos do evento. É uma produção bem feita, com diretores de credibilidade real, e vai ser assistida por muita gente. Mas existe uma pergunta que ninguém está fazendo sobre ela, e que a DropDaily precisa fazer.

O terceiro princípio

O Burning Man tem dez princípios fundadores, escritos pelo cofundador Larry Harvey em 2004. O terceiro se chama Decommodification. O texto oficial diz: “Para preservar o espírito da doação, nossa comunidade busca criar ambientes sociais não mediados por patrocínios comerciais, transações ou publicidade. Estamos prontos para proteger nossa cultura de tal exploração. Resistimos à substituição do consumo pela experiência participativa.”

Esse princípio não é figurativo. É constitutivo. É o que separa o Burning Man de qualquer outro festival de grande porte no mundo. Não existe área de patrocinadores. Não existe naming rights de palco. Não existe marca na entrada. A ideia central é que a experiência não pode ser mediada por dinheiro, por publicidade, por consumo passivo.

E então a HBO entrou.

O que a série vai mostrar

The Man Will Burn vai explorar o impacto da COVID-19, que forçou o cancelamento do evento por dois anos consecutivos, e vai mergulhar nas tensões geradas pelo influxo recente de influenciadores e dinheiro do Vale do Silício. A série segue a CEO Marian Goodell enquanto ela guia a organização por uma série de desafios que testam tanto sua liderança quanto o futuro do evento.

Os quatro episódios documentam o impacto da pandemia, o surgimento do Renegade Burn, os debates sobre comercialização e influência das redes sociais, e as chuvas sem precedentes que destruíram a edição de 2023.

É, portanto, uma série sobre uma organização lutando para se manter fiel aos seus valores originais enquanto pressões externas tentam redefinir o que ela é. O que é, no mínimo, irônico. Porque a série em si é uma dessas pressões.

A contradição que ninguém quer nomear

A Burning Man Project afirma que a série foi produzida em alinhamento com as diretrizes de mídia do evento. Isso pode ser verdade. Jehane Noujaim tem um histórico de documentários sobre movimentos sociais que respeitam seus sujeitos. Vikram Gandhi fez Kūmāré, um filme sobre identidade e ilusão coletiva que seria difícil de encaixar numa lógica de entretenimento corporativo convencional.

Mas a HBO não é um veículo alternativo. É uma divisão da Warner Bros. Discovery, uma das maiores corporações de mídia do planeta. E aceitar essa parceria não é neutro. É uma decisão que diz algo sobre onde o Burning Man está hoje e para onde está indo.

A série explora como criadores e frequentadores de longa data reagiram ao influxo recente de influenciadores e dinheiro do Vale do Silício. Essa é exatamente a mesma tensão que a própria série representa. A ironia não é acidental. É o tema central, e a organização escolheu documentá-la numa plataforma que encarna o problema.

O que isso tem a ver com a cena eletrônica

O Burning Man não é um festival de música eletrônica no sentido estrito. Mas é, junto com o Berghain e alguns poucos outros espaços, um dos últimos lugares onde a lógica da experiência ainda vence a lógica do produto. Onde a participação é a proposta, não o consumo. Onde a presença física e coletiva não pode ser replicada numa tela.

Essa é também a promessa central de qualquer boa festa, qualquer bom club, qualquer festival que ainda leva a sério o que acontece na pista. E é uma promessa que está sendo testada em todo lugar ao mesmo tempo: pelo dinheiro corporativo que entrou nos grandes festivais, pelas transmissões ao vivo que substituem a presença, pelos celulares que transformam experiência em conteúdo.

O Burning Man virar série na HBO não é o fim de nada. Mas é um dado. E dados revelam direção.

The Man Will Burn estreia em 9 de julho na HBO e no Max.

Encontrei minha paixão pela música eletrônica na infância e sonho em viajar pelo mundo fazendo o que amo e conhecendo novas culturas.