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One More Time: por que o retorno do Anzuclub emocionou uma geração inteira

Da nostalgia ao movimento: como One More Time provou que Anzuclub nunca morreu.

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Créditos: ©2025 Gui Urban

Existe algo profundamente poderoso quando uma memória coletiva se materializa novamente. No dia 26 de abril de 2025, centenas de pessoas se reuniram em Itu não apenas para uma festa, mas para um reencontro com suas próprias histórias. O que começou como uma homenagem aos 20 anos do Anzuclub se transformou em algo muito maior: a comprovação de que certas experiências transcendem tempo e espaço, criando laços que nem mesmo uma década de silêncio consegue quebrar. Agora, dois meses depois, a casa se prepara para dobrar a aposta com a segunda edição do One More Time neste sábado, 28 de junho, provando que aquela primeira noite não foi apenas nostalgia – foi o início de um movimento.

26 de abril: a noite que provou que a nostalgia move montanhas

Quando David Morales subiu ao palco principal do Anzuclub naquela noite de abril, algo mágico aconteceu. Não era apenas um DJ internacional tocando para uma pista brasileira – era o encontro entre duas gerações de clubbers, mediado por alguém que entende profundamente o poder transformador da música eletrônica. O Grammy winner, que já havia marcado presença histórica na cena brasileira, encontrou uma audiência sedenta de reviver emoções que pareciam perdidas no tempo.

Viktor Mora, o residente lendário que definiu o DNA sonoro do Anzuclub por duas décadas, voltou para casa naquela noite. Sua presença no booth não era apenas simbólica – era o reconhecimento de que certas conexões entre artista e pista simplesmente não se desfazem. A forma como os corpos se moveram, como os olhares se conectaram, como vozes se ergueram em uníssono, tudo isso confirmou que o Anzuclub nunca realmente morreu. Apenas hibernou, esperando o momento certo para despertar.

A repercussão foi imediata e avassaladora. Redes sociais se encheram de fotos, vídeos e depoimentos emocionados de pessoas que tinham encontrado uma parte de si mesmas que julgavam perdida. Não era apenas sobre música eletrônica – era sobre identidade, sobre pertencimento, sobre a necessidade humana de conectar-se com momentos que moldaram quem somos hoje.

28 de junho: quando a casa dobra a aposta

A segunda edição do One More Time, que acontece neste sábado, representa uma evolução natural do conceito. Se a primeira edição foi uma prova de conceito emocional, esta é a confirmação de que o fenômeno tem pernas para se sustentar e crescer. A curadoria internacional da segunda edição não é coincidência – é estratégia pura.

Gadjo, o produtor alemão por trás de “So Many Times”, chega ao Brasil carregando uma das faixas mais emblemáticas dos anos 2000. Quem viveu a época dourada da música eletrônica sabe o peso emocional dessa escolha. “So Many Times” não é apenas uma música – é um portal temporal que transporta quem ouve de volta para pistas suadas, madrugadas sem fim e a sensação única de fazer parte de algo maior que nós mesmos.

Tocadisco completa o line-up internacional trazendo na bagagem sua colaboração histórica com David Guetta em “Tomorrow Can Wait”. A escolha não poderia ser mais certeira: uma faixa que conecta a essência underground dos anos 2000 com a explosão mainstream que viria depois. É a ponte perfeita entre o Anzuclub que foi e a cena eletrônica que se tornou.

Mas o que realmente impressiona é como essa escalação internacional dialoga com a primeira edição. David Morales abriu caminho, provando que o público brasileiro estava pronto para esse reencontro. Gadjo e Tocadisco chegam agora para consolidar que One More Time não foi um evento isolado, mas o primeiro capítulo de uma narrativa maior.

Três pistas, três universos: a curadoria que conta histórias

O Anzuclub sempre foi mais do que um club – foi um universo com diferentes planetas sonoros. A segunda edição do One More Time reconstrói esse cosmos com precisão cirúrgica, dedicando cada espaço a uma faceta diferente da experiência que definiu gerações de clubbers.

O Mainstage recebe não apenas os headliners internacionais, mas também Viktor Mora e Buga, criando uma conversa temporal fascinante. Imaginem: Gadjo entregando “So Many Times” enquanto Viktor Mora prepara o terreno com a sensibilidade curatorial que ele desenvolveu ao longo de duas décadas de residência. É a união entre o ícone mundial e o conhecimento local, entre a nostalgia universal e a memória afetiva específica da cena brasileira.

No Mezanino, Harris Miller e DJ Meyer assumem a responsabilidade de manter viva a essência mais pura da casa. Como ex-residentes, eles carregam não apenas técnica, mas também a memória musical do que fez o Anzuclub especial. É o espaço onde quem busca a essência mais concentrada da experiência original encontra exatamente o que procura.

Créditos: @thiagofmxavier

A #PistinhaMeuAmor merece atenção especial. O apelido carinhoso dado à área open air revela muito sobre a relação afetiva que o público desenvolveu com cada canto da casa. Eli Iwasa como atração principal, acompanhada pelo ex-residente Soldera e pelos convidados Sheldon e Morete, cria um ambiente onde a experiência Anzuclub ganha contornos mais relaxados, mas não menos emocionantes.

Cada pista conta uma parte da história, cada DJ representa uma faceta do que foi e do que pode ser novamente. A curadoria não apenas programa música – constrói narrativas que se complementam, criando uma experiência total que justifica a viagem no tempo que One More Time propõe.

O fenômeno que não para de crescer

Entre a primeira e a segunda edição, algo interessante aconteceu nas redes sociais e grupos de WhatsApp da cena eletrônica brasileira. O One More Time não saiu de pauta. Fotos da primeira edição continuaram circulando, histórias pessoais continuaram sendo compartilhadas, e uma pergunta persistiu: “Quando vai ter de novo?”

A resposta veio rápido. Dois meses é um intervalo quase recorde para eventos dessa magnitude, mas faz sentido quando entendemos que estamos lidando com algo mais profundo que entretenimento. Estamos falando de necessidade emocional coletiva. A primeira edição não satisfez completamente a fome nostálgica – ela a intensificou.

O engajamento orgânico em redes sociais conta uma história fascinante. Posts sobre o One More Time geraram mais comentários emocionais que qualquer outro evento da cena eletrônica brasileira em 2025. Não eram apenas curtidas ou compartilhamentos – eram depoimentos pessoais, memórias detalhadas, promessas de reencontro. O tipo de engajamento que algoritmos adoram, mas que só acontece quando o conteúdo toca fibras profundas da experiência humana.

A segunda edição surge nesse contexto de expectativa amplificada. Não é apenas “mais uma festa” – é a continuação de uma narrativa que a primeira edição começou a contar. É a chance de confirmar que aquela noite de abril não foi um acaso, mas o primeiro passo de algo mais duradouro.

Gadjo vs David Morales: escalas diferentes, mesma emoção

Comparar os headliners das duas edições revela muito sobre a estratégia curatorial por trás do One More Time. David Morales chegou carregando o peso de ser um Grammy winner, um nome que transcende nichos e gêneros. Sua presença validou o evento perante a indústria internacional e trouxe credibilidade imediata ao projeto de ressurreição do Anzuclub.

Gadjo chega com um perfil diferente, mas não menos significativo. “So Many Times” é uma daquelas faixas que definem épocas. Quem dançou house music nos anos 2000 tem uma relação pessoal com essa música. Não é apenas reconhecimento – é conexão emocional direta. Tocadisco complementa com “Tomorrow Can Wait”, criando uma dupla que representa dois momentos cruciais da evolução da música eletrônica: o underground puro e sua transição para a mainstream.

A escolha revela maturidade curatorial impressionante. A primeira edição precisava provar que o conceito funcionava – daí David Morales, nome que ninguém questiona. A segunda pode se permitir ser mais específica, mais direcionada ao público que já provou estar presente e engajado. Gadjo e Tocadisco falam diretamente com quem viveu aquela época, criando uma intimidade que mesmo grandes nomes nem sempre conseguem.

É a diferença entre impressionar e emocionar. David Morales impressionou e emocionou. Gadjo e Tocadisco chegam para emocionar quem já está impressionado, aprofundando a conexão em vez de simplesmente estabelecê-la.

Créditos: Alexandre Cury

One More Time virou movimento: o que vem depois?

Aqui chegamos ao ponto mais interessante de toda essa história. O que começou como homenagem aos 20 anos do Anzuclub está se transformando em algo maior: a criação de um novo formato de evento que pode influenciar toda a cena eletrônica brasileira.

A fórmula é aparentemente simples: pegar um venue icônico, reunir artistas que marcaram época, convidar o público que viveu aqueles momentos e criar um ambiente de reencontro. Mas a execução revela complexidades fascinantes. Não basta juntar nomes famosos e esperar que a magia aconteça. É preciso entender as camadas emocionais envolvidas, respeitar a memória coletiva e criar pontes entre passado e presente.

O sucesso do One More Time pode inspirar outros venues históricos a tentarem ressurreições similares. Imaginem um “Love Club Revival” ou um “Lov.e Experience”. A fórmula está estabelecida, mas a execução exige sensibilidade e conhecimento profundo da cultura clubbing brasileira.

Mais interessante ainda é pensar no impacto na cena progressive house atual. Novos DJs estão redescobrindo faixas dos anos 2000, incorporando referências históricas em sets contemporâneos, criando pontes entre gerações que pareciam desconectadas. One More Time não está apenas celebrando o passado – está influenciando o futuro.

A pergunta que fica no ar é: até onde esse movimento pode crescer? Uma terceira edição já parece inevitável, mas como manter a magia sem transformar exceção em rotina? Como preservar o caráter especial de um reencontro se ele se torna frequente demais?

A anatomia de um reencontro

O que torna One More Time especial não são apenas os DJs ou a produção – é a natureza humana do reencontro que ele proporciona. Conversar com pessoas que estiveram na primeira edição revela camadas emocionais complexas que vão muito além da música.

“Foi como voltar para casa depois de anos viajando”, conta Ana, de 34 anos, que frequentou o Anzuclub de 2005 a 2012. “Não era só nostalgia. Era reconhecer uma parte de mim que eu achava que tinha perdido no caminho.” Depoimentos como esse se repetem em diferentes variações, sempre tocando no mesmo ponto: identidade.

A música eletrônica, especialmente no formato clubbing, cria identidades coletivas poderosas. Quando essas identidades são interrompidas – pelo fechamento de uma casa, pelo fim de uma cena, pelas mudanças da vida adulta – elas não desaparecem. Ficam latentes, esperando a oportunidade certa para ressurgir.

One More Time oferece essa oportunidade de forma segura e celebratória. Não é tentativa desesperada de reviver o passado, mas reconhecimento maduro de que certas experiências merecem ser honradas e, quando possível, reimaginadas para o presente.

O cardápio da memória

Um detalhe que pode passar despercebido, mas que revela a atenção curatorial do evento, é a manutenção do mesmo cardápio de comidas e bebidas do Anzuclub original. Pode parecer secundário, mas quem entende de memória afetiva sabe que sabor é um dos gatilhos mais poderosos para transportar consciências no tempo.

O drink que você tomava na sua primeira vez no Anzuclub, o lanche que sustentava as madrugadas intermináveis, a água gelada que salvava depois de horas de dança – todos esses elementos são peças fundamentais da experiência total. Mudá-los seria quebrar a imersão, criar desconexão onde deveria haver familiaridade.

Essa atenção aos detalhes revela que os organizadores entendem profundamente o que estão fazendo. Não estão apenas promovendo uma festa temática – estão criando uma máquina do tempo funcional, onde cada elemento colabora para a sensação de volta ao passado.

Entre gerações: novos clubbers descobrindo história

Um dos aspectos mais interessantes do fenômeno One More Time é como ele atrai não apenas veteranos nostálgicos, mas também jovens clubbers curiosos para descobrir de onde vieram as referências que permeiam a cena atual.

Para quem tem 22 anos hoje, o Anzuclub é história contada por irmãos mais velhos, DJs que admiram, produtores que referenciam aquela época em entrevistas. One More Time oferece a chance única de experimentar algo próximo ao original, entender na prática o que fez daquele lugar uma lenda.

Essa dinâmica geracional cria energia interessante na pista. Veteranos redescobrem emoções, novatos descobrem origens. Ambos os grupos se alimentam mutuamente, criando uma experiência que é simultaneamente nostalgia e descoberta, passado e presente dançando juntos.

A tecnologia como aliada da nostalgia

Vale observar como a tecnologia atual potencializa a experiência nostálgica do One More Time. As redes sociais permitem que cada momento seja documentado e compartilhado instantaneamente, criando uma memória coletiva digital que se soma à memória afetiva individual.

Fotos e vídeos da primeira edição ainda circulam, sendo redescobertos por pessoas que não estiveram lá, gerando FOMO retroativo e expectativa para a segunda edição. É um fenômeno fascinante: a tecnologia que teoricamente deveria nos conectar com o presente está sendo usada para intensificar nossa conexão com o passado.

Streaming de sets, stories em tempo real, posts reflexivos nos dias seguintes – tudo isso amplifica o impacto do evento muito além das fronteiras físicas da casa. One More Time não acontece apenas em Itu, acontece também nas timelines de milhares de pessoas que acompanham à distância, vivendo a experiência de forma mediada mas não menos intensa.

Créditos: Gui Urban

O futuro da nostalgia

Se One More Time prova algo, é que nostalgia não é apenas saudade do passado – pode ser ferramenta ativa de construção de futuro. Ao reconectar pessoas com suas raízes musicais e culturais, o evento cria base sólida para novas experiências e desenvolvimentos.

DJs que se reencontram na pista do Anzuclub voltam para casa inspirados, influenciados, renovados. Produtores redescobrem sonoridades que haviam abandonado. Clubbers lembram por que se apaixonaram pela música eletrônica em primeiro lugar. Esse processo de reconexão com origens tem potencial de influenciar profundamente os rumos da cena brasileira.

A segunda edição deste sábado será um teste crucial. Confirmar que o fenômeno tem sustentação além da novidade, que a emoção se mantém mesmo quando a surpresa diminui. Reviva todos os detalhes do line-up histórico e acompanhe como essa narrativa continua se desenvolvendo.

Mais que uma festa, um movimento

Quando as luzes se acendem no final da segunda edição do One More Time, no domingo de manhã, uma certeza ficará no ar: assistimos ao nascimento de algo maior que entretenimento. Presenciamos a criação de um novo formato de celebração cultural, uma maneira madura e respeitosa de honrar o passado enquanto se constrói futuro.

O Anzuclub pode ter fechado em 2017, mas sua essência encontrou forma de continuar existindo. One More Time não é tentativa de ressuscitar o morto – é reconhecimento de que certas energias são mais fortes que circunstâncias, que certas conexões transcendem espaço e tempo.

Para quem está lá neste sábado, seja pela primeira ou segunda vez, seja revivendo memórias ou criando novas, uma coisa é certa: vocês estão fazendo história. Estão provando que música eletrônica brasileira tem memória, tem raízes, tem futuro.

E para quem acompanha de longe, fica a pergunta que não quer calar: quando será que sua casa noturna favorita vai ganhar seu próprio One More Time?

A resposta talvez esteja sendo construída agora mesmo, na pista do Anzuclub, onde passado e futuro dançam juntos mais uma vez.

Encontrei minha paixão pela música eletrônica na infância e sonho em viajar pelo mundo fazendo o que amo e conhecendo novas culturas.