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Photon: um feixe de resistência em meio ao mainstream

“Photon é sobre a experiência de luz, arquitetura e música”, resume Ben Klock, idealizador da
label, residente longevo do Berghain e co-fundador do respeitado selo Klockworks.

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No dia 23 de agosto, a Photon retorna ao Brasil após seis anos de sua estreia, em 2019. A segunda edição acontece no Gate22, em Campinas, trazendo com ela mais do que apenas uma noite de música: traz uma declaração estética, filosófica e política sobre o que o Techno ainda pode ser.

O cenário que a label encontrará agora é bem diferente daquele de 2019. Há não muito tempo, o Techno era majoritariamente ligado ao underground, sustentado por raízes detroiters e berlinenses que valorizavam a introspecção sonora, o anonimato e a imersão coletiva. Mas, à medida que a popularidade do gênero cresceu, surgiram novos nomes, novos sons e, junto com eles, uma aproximação com a lógica do mainstream.

Festivais de grande porte começaram a escalar artistas com sonoridades mais acessíveis, apelos visuais grandiosos e uma estrutura de palco que muitas vezes se assemelha mais a um espetáculo comercial. Em meio a esse contexto, Ben Klock se mantém como um guardião de uma estética que vai na contramão: ele cria espaços temporários de liberdade onde luz, som e arquitetura se unem para formar uma experiência ritualística e crua.

Identidade sonora contrária às tendência comerciais

Na Photon, não há espaço para o techno “mais pop” ou para o chamado business techno. O que se ouve é um som mais denso, hipnótico, com camadas que dialogam com o minimalismo brutalista da Berlim pós-muro. É uma ode ao Techno como ferramenta de imersão, não de distração.

E é aqui que reside o ponto central deste artigo: mesmo em Berlim, berço moderno do Techno, há um processo crescente de erosão de espaços icônicos. O Watergate, um dos clubes mais respeitados da cidade, encerrou suas atividades em 2024. O próprio Berghain, ainda que resista, vive um constante embate entre preservar sua essência e adaptar-se ao turismo massivo.

Nesse cenário, projetos como a Photon surgem como trincheiras sonoras. Não por saudosismo, mas por coerência. Enquanto a cultura de pista se vê seduzida pelo algoritmo, Klock ainda acredita no poder de uma cabine escura, um som cavernoso e uma pista que dança por horas sem precisar de um drop comercial ou de efeitos pirotécnicos.

Photon é sobre essência, não sobre tendência. E num momento em que o Techno virou produto, essa essência é, por si só, um ato político.

Créditos: Divulgação

Ben Klock como figura de coerência estética

Ben Klock é um símbolo da longevidade e da coerência dentro da cena Techno. Enquanto muitos de seus contemporâneos exploraram caminhos mais comerciais ou híbridos para se manter relevantes, Klock manteve uma assinatura estética sólida, tanto nos seus sets quanto nos seus lançamentos pela Klockworks.

Seu som é denso, repetitivo, quase meditativo. Seus sets ao vivo são conhecidos por não cederem à fórmula fácil do drop explosivo ou da track viral. E é justamente essa consistência sonora e ideológica que se manifesta na Photon.

Não há concessões. Não há vontade de agradar o algoritmo. Há, sim, uma escuta ativa e curadoria minuciosa. A label é uma extensão natural da visão que Klock defende desde que começou a moldar a identidade sonora do Berghain no início dos anos 2000: um techno que pulsa no subterrâneo da alma, que dialoga com a arquitetura e que se recusa a ser diluído pela lógica do mercado.

Curadoria e construção de atmosfera: o antídoto contra o excesso

Em um momento onde a indústria de eventos vive uma superprodução de festivais e experiências imersivas com dezenas de atrações simultâneas, a Photon propõe o oposto: concentração, profundidade e coerência.

A construção da noite se dá por meio de uma curadoria precisa, muitas vezes com menos nomes no line-up, mas com artistas capazes de criar narrativas sonoras que se desdobram ao longo de horas. DJs como DVS1, Etapp Kyle, Sterac ou Rødhåd não estão ali para “chamar atenção”, mas para conduzir uma jornada, explorando tensões, respiros e camadas que provocam o corpo e o subconsciente.

É uma escolha intencional: no lugar da ansiedade do “quem toca depois?”, entra a presença plena. O foco muda da performance para a construção atmosférica – e isso exige um público disposto a sentir mais e filmar menos. Num cenário em que o Techno é cada vez mais consumido como trilha de reels, a label resgata o espaço onde o som volta a ser vivência, e não só consumo.

Créditos: Divulgação

Photon como espaço contra-hegemônico

Mais do que um evento, a Photon é uma espécie de ato arquitetônico. Em vez de empilhar elementos visuais para impressionar, a label utiliza luz e escuridão de maneira quase coreográfica, criando uma ambientação que flerta com o minimalismo brutalista. Não se trata de brilhar, mas de absorver.

Na Photon, a cabine não é o centro das atenções. Os artistas tocam no escuro. Muitas vezes, o
público sequer vê o DJ com nitidez. Essa escolha estética tem peso simbólico: ela desloca o foco do “ídolo” e devolve o protagonismo para a pista. O público, nesse contexto, não é plateia, é parte do processo.

Ao rejeitar os recursos tradicionais dos grandes espetáculos, como telões gigantes, pirotecnia ou branding exagerado, Klock, através da Photon, convida a uma escuta radical, a um estado quase meditativo. É uma recusa em seguir o roteiro da indústria. E, por isso mesmo, um espaço contra-hegemônico dentro da cena eletrônica.

Ela nos lembra que a pista não precisa entreter. Ela pode provocar, acolher e, acima de tudo, resistir.

A pergunta que fica

Em tempos onde a lógica do mercado dita o que ouvimos, como dançamos e até como filmamos, a existência de projetos como a Photon nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: o que estamos perdendo ao transformar o Techno em entretenimento descartável?

Enquanto muitos correm atrás de palcos gigantes, virais e line-ups repetidos, a Photon nos lembra que há beleza no escuro, no silêncio entre as batidas, na construção lenta e ritualística de uma noite.

Talvez a verdadeira vanguarda hoje não esteja em inventar algo novo, mas em proteger o que ainda não foi corrompido.

E você, vai dançar por status ou por propósito?